TRÍPTICO

1.
     Jamais no mesmo lugar:
     a jornada não termina  -
     com bordão de peregrino
     por veredas ou por ‘stradas.
     Por vezes    súbito engano
     a voltar atrás obriga
     mas alento retomando:
     em frente     por outra via.
     Evita vistas paisagens
     alguma vez já olhadas
     e novos mundos descobre
     por desconhecidas rotas.
     Pois é este o seu destino
     de contínua descoberta:
     afanosamente perto
     de tudo o que vai fugindo.

2.
     E tudo é memorar. Um passo em frente
    e nada permanece: o construído
    ergue-se enfim na   pálida aparência
    de que ali   ficará e para sempre. 
    D’ilusões, de miragens se edificam
    os curtos espaços   num mudável  tempo,
    se fazem pontes, metas com limites
    mas que se julgam indeléveis, firmes.
    Que passado futuro nos contempla
    no rodopio informe do fluir
    à espera que o façamos presente
    a ser lembrado como tal    um dia?
3.
    Atravessas aparências
    e entregas corpo ao vazio:
    de areias fazes surgir
    a segura permanência;
    no silencioso xisto
    dormem lâminas suaves
    e do pesado granito
    a leveza ganha o ar;
    do que foi árvore em solo
    de fecundo germinar
    a madeira alcança forma
    em forma que alma lhe dá.
    Sentidos vários percorrem
    as tuas mãos a criarem.

António Salvado, Março/2011       

Reflexão sobre estímulos que me levam à criação plástica

Rural urbanizado, urbano desenraizado, assim escrevia eu no catálogo da minha primeira exposição individual, em 1985 no “O Camarim”, em Lisboa. E sempre assim foi. Assumindo Lisboa por inteiro, sempre me mantive beirão, pelos afectos, pela nostalgia, pelas minhas raízes, pelas minhas vivências e formação adolescente.

O que faço na área das Artes Plásticas sempre foi tocado pelas imagens que as minhas raízes me gritam. As figuras referem-se sempre à Mulher Beirã. As mães carregando os filhos, ao colo o mais pequeno, agarrados à saia os mais crescidos, a enxada ao ombro e o cesto à cabeça. O Homem, na sua solidão, acompanhado do gato ou do cão. O regresso do pai a casa, após as dificuldades de mais uma jornada. E as avós à porta, esperando, nem elas sabem o quê. Ei-las que chegam, vão sossegando. Os rebanhos de cabras nos cumes e de ovelhas na planura davam o movimento aos campos, quando estes o permitiam.

As pedras, empilhadas umas sobre as outras, compõem os muros que dividem o minifúndio. Aparelhadas, com a esquadria perfeita, eram o material de construção das casas. Com as mais diversas cores, do ocre ao azul e do castanho aos verdes e amarelos, a riqueza cromática do xisto sempre me impressionou e continua a ser, para mim, muito estimulante.

Foi o calor da terra no Verão que me moldou e continua a ser esse o calor que a minha paleta despeja na tela. Mais ou menos texturadas, mais ou menos rugosas, as minhas telas são sempre aquecidas pelo ar quente que sopra do Sul. São as lembranças da Beira que me enchem o espírito e me lavam a alma. Assim, vou retirando as diversas imagens que vivem em mim para cobrir a tela de pedaços de terra e dos seus habitantes, gente e animais…

Lembranças da Beira

Trago a terra de xisto colada às botas
A urze, as estevas e as giestas colam-se à minha pele
Minhas vestes exalam o aroma do mato
E dos graníticos campos da minha Beira.

O ar seco e quente dos pastos no estio
Acompanha o meu Inverno crepitando na lareira
Que foi da minha infância,
Com os gravetos que a chuva teimosamente humedecia.

E o Outono sempre refrescando a terra
Conservando as rugas e as texturas que os rebanhos
Gravaram nos meus olhos cheios de sol,
Azul intenso, sombras que a Primavera apaga.

Luís Fernandes, Outubro/2010

Depois da Paisagem

Conheci Luís Fernandes, naturalista expressivo com forte cromatismo pictórico, luminosidade sempre presente.

“Depois da Paisagem” mostra-nos um esbater sequencial, o não fechar portas de outrora, mas sim o abrir novos horizontes no seu caminho de Artista Plástico. Um desconstrutivismo marcante. É como um baralhar o seu conhecimento empírico da região que o viu nascer.

Artur Ribeiro, Setembro de 2009

Fusão entre imaginário e natureza

“(...) Um conjunto de trabalhos a óleo, que prima pelo abstracto e pelas texturas, rugosidades que o autor cria a partir da utilização de diversos materiais. O imaginário e a natureza que surgem conjugados em obras que o próprio autor reconhece como tridimensionais. Madeira, ferro e pedra, pintura, gravura e escultura são resultado que Luís Fernandes alcança e no qual “procura atingir o pleno da realização”. A tridimensionalidade atravessa de facto toda a sua obra. Foi pintor, dourador e decorador. Uma envolvente de saberes que tornam a exposição singular. Além das esculturas, das pinturas e das gravuras, este artista da Beira Baixa, da aldeia da Partida, apresenta numa das salas uma composição artística que nos transporta para um mundo de imagens, tons e sensações difíceis de interpretar, mas que aguçam os sentidos e as emoções. Panos e linhas preenchem um espaço de teias labiríntico, onde o espectador pode ser a aranha, o predador ou a presa, ou simplesmente o observador (...)”

IB/Jornal Povo da Beira, Setembro de 2010

Com Sentido

Luís Fernandes, simpático, modesto, o seu itinerário artístico começa como laborioso artífice, pintor decorativo e dourador, como de si próprio diz. Assim, torna-se fácil ver essa matriz em seus quadros que, quaisquer que sejam as temáticas abordadas, têm o dourado permanentemente presente, a enriquecer de luz a visão do observador, como esplendoroso sol das vidas e das almas. As nossas.

Seu curriculum plástico, assinado desde 1985, com quase 25 anos de exercício portanto, revela agora novas experiências a caminharem para o pleno dos géneros, ao envolver escultura e gravura nesta presente exposição individual.

Não se dirá que tudo está plenamente conseguido neste artista, mas há que destacar a sua disponibilidade para outras metas alcançar, não se cristalizando em receitas, sabidas, garantidas, antes na tentativa esforçada e sentida de superar naturais dificuldades que essas novas matérias orgânicas implicam, num projecto aberto à descoberta do ainda ambicionado e com vitalidade demonstrado.

É esta vitória sobre os comodismos, as fórmulas, os estilos, as escolas, que é justo saudar em Luís Fernandes, sobre quem se dirá “o promissor”, artista em ascensão de técnicas e estéticas.

Sabendo de raiz quanto se sofre neste tipo de trabalho que parece folgado - de folgas e até folgazão - que louvo o Luís Fernandes, sem que a amizade me confunda com o mérito plástico que, reconhecidamente, se encontra na sua pessoa obreira.

moreira rijo, 2009

Paisagens com gente e animais dentro...

Habitar o silêncio e a espera entre paisagens de cá e de lá
com pessoas dentro e outros animais,
com sombras ao fim ou inicio bucólico de aguardar o poeta
que há-de vir tocar nos pincéis e no óleo escorrendo dentro do nosso corpo de observar,
lembra-nos Alberto Caeiro o pastor do seu rio e paisagem profunda,
o Luís Fernandes abarcando o que há-de ser senão o criar as raízes da Beira na cidade
que nos consome e nos deixa a pintar o abraço da infância
nos planaltos de Lisboa, dorida de corpos, de rostos presos ao passado da “minha aldeia”
de ingenuidade sadia e fecunda
como o rasto das sementes que se tornaram flores e frutos e árvores de grande porte
dando sombras da luz que vem do sol e se põe em todos os corações expectantes.

Eis o Luís, pintor do sonho das raízes
com as tais memórias bem dentro com pessoas e animais
despejando para a tela as cores do ar lavado
com múltiplas paisagens dentro onde os corpos caminham
ou esperam ou regressam ao aconchego do poema
com o olhar preso a essa espera,
essa ligação de Sintra com outras atmosferas da Beira,
outros sulcos de desenhar sentimentos,
presos desde o nascer
ao toque da tela
ajudando a respirar e tornando mais livre esta sensação boa
pelo tornear a outra margem mais serena,
como esta atitude de mensagem onde podemos reflectir pausadamente,
como uma folha vindo calmamente do regaço das árvores
perante o olhar de todos os animais beijando mais um ciclo de prazer e contemplação…

Eis a paisagem entre muitas fronteiras…

Eduardo Nascimento, Out. 2006

Ericeira 1998

A pintura tem o poder de nos fazer viajar pelo imaginário dos nossos sonhos perdidos.
Sentimentos que nos invadem ao descobrir estes trabalhos.
O Mar, a Terra a Neblina, uma tríade que confere à costa da Ericeira uma mística de formas e tons.
A essência desta criação.
O Mar invadindo a Terra. O pintor invadindo as telas…
Projectando os seus estados emocionais. Escondendo-os na neblina…
Simbiose perfeita de texturas, tons, traços, segredos, sentimentos, harmonia.
Tudo muito característico da forma como pinta.
Que eu diria de elogiar o que pinta…

Rita Mascarenhas, Junho / 98

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